Spectre ★★★

There is no review for this diary entry. Add a review?

Review in brazilian portuguese, originally published on the website Me Desculpe, Dave.

‘Casino Royale’, em 2006, conseguiu revigorar a franquia Bond com um novo tom realista e uma atmosfera madura que deixava as bobices do Pierce Brosnan no passado. Os dois filmes que se seguiram – ‘Quantum of Solace’ e ‘Skyfall’ – mantiveram esta visão (e eu acreditava que esta mudança se manteria pra sempre). Mas ‘Spectre’, infelizmente, opta por descartar o que fora construído ao longo dos últimos três filmes e retorna ao clima light de antes. Esta decisão pode ter sido uma tentativa de reviver os velhos tempos de James Bond no cinema, mas na real, ‘Spectre’ parece mais uma paródia de si mesmo do que uma história ambientada no mesmo universo de seus antecessores. Paródia porque os criadores apelam para o humor – independente se o momento é apropriado – através de falas, gestos, situações e inclusive trilha sonora (Há um momento no qual James Bond, ao cair de um prédio, convenientemente pousa sobre um sofá. A cena parece ter saído direto de um desenho animado). O problema é que estas tentativas descaracterizam completamente o tom da franquia, que desde ‘Casino Royale’ vem demonstrando maturidade, enquanto que ‘Spectre’ é tão infantil em sua postura que destoa-se completamente dos outros filmes.

Boa parte dos problemas em ‘Spectre’ podem ser apontados como falhas do roteiro. O que me espanta é que três dos quatro roteiristas responsáveis por ‘Spectre’ são também responsáveis por ‘Skyfall’, sem contar o diretor, parte do elenco e alguns membros da equipe que também participaram de ambos os filmes. E é estranhíssimo pensar como as mesmas pessoas podem ter acertado tanto em um e errado tanto em outro, já que o roteiro chega a descaracterizar até nosso protagonista, James Bond: se antes, o Bond de Daniel Craig sempre apresentava um ar misterioso ao falar somente o necessário, expressando o personagem através de pequenas nuances, aqui o mistério se esvai com um 007 tagarela, que faz acenos bobos para inimigos e toma decisões impensadas (pra não dizer estúpidas). E que crime é desperdiçar Christoph Waltz como vilão de seu filme! Todos aqueles que assistiram ‘Bastardos Inglórios’ sabem o irrefutável talento do ator no papel de antagonista. E aqui seu Oberhauser – mesmo que similar ao compor o “vilão refinado” – não se compara ao Hans Landa do ‘Tarantino’, não por culpa do ator, mas sim pelo roteiro que limita as palavras do personagem a enfatizar o quanto este destruiu a vida de James Bond, sem sequer mostrar como ou porque.

O roteiro também desaponta em sua trama, que mesmo tendo uma premissa bem interessante – fazer uma ponte com todos os outros três filmes e fechar o arco ‘Daniel Craig’ – é tão mal executada que fica difícil de comprar. Falta verossimilhança. Oberhauser é, supostamente, o maior vilão desta nova fase Bond, mas o filme apenas nos propõe a ideia sem nunca nos convencer daquilo. A conexão com os outros filmes também tinha potencial, mas é igualmente desperdiçada pois se limita a apenas mostrar fotografias dos vilões anteriores e personagens marcantes (os créditos iniciais foram aproveitados para funcionar como um ‘Anteriormente, em 007′, relembrando o público o que já aconteceu na história).

Falando em personagens marcantes, lembra de Vesper Lynd? Ela foi a melhor Bond girl, porque Vesper foi além desse paradigma. A relação dela com James foi algo tão excepcional que de fato nos importávamos com a felicidade dos dois (o que apenas engrandece o clímax de ‘Casino Royale’). Já Spectre não se importa muito em desenvolver uma relação verossímil entre James Bond e Madeleine Swann (nova Bond girl interpretada por Léa Seydoux), já que ela só parece existir para que nosso protagonista viva um novo romance e um final feliz para o arco ‘Daniel Craig’.

Não posso deixar de falar também dos constantes clichês, repetições e tentativas infantis de causar humor ao longo do filme. Para começar, temos cerca de QUATRO sequências envolvendo algum transporte aéreo durante a projeção. Talvez esse filme devesse se chamar Skyfall, não? (Perdoem o trocadilho.) Quanto ao humor, ‘Spectre’ alcança tal nível do absurdo que temos uma cena onde um adversário lança um “- Merda!”, em close, logo antes de ser derrotado de forma cômica (leia-se “infantil”). E os clichês envolvem na maior parte o romance surreal entre Madeleine e Bond, que nunca chega a parecer algo remotamente plausível.

‘Spectre’ deixa muito a desejar. A única coisa que não se perde nesta continuação é o olhar afiado de Sam Mendes para construir belos planos. Ainda que não se compare ao trabalho inspirado do diretor em Skyfall – que trazia a impecável Fotografia de Roger Deakins -, aqui ainda temos alguns momentos onde podemos contemplar os visuais do diretor. Meu favorito é logo numa das primeiras cenas, na qual Bond caminha a beira de um prédio enquanto ajeita seu terno sem nunca olhar para baixo ou demonstrar qualquer nervosismo. Uma cena maravilhosa, que demonstra o potencial desperdiçado no longa.

Antes o filme tivesse seguido a qualidade daquela cena.