1964: Brazil Between Weapons and Books ½

(Ainda não sei se escreverei sobre o filme, já que - sendo honesto - é rasteiro demais para merecer tanta atenção, mas, enquanto isso, reproduzo abaixo algumas observações iniciais feitas no Twitter:)

Assisti ao tal "documentário" que a direita insiste em dizer que não é pró-ditadura, mas uma leitura "imparcial" da História. Estou organizando minhas anotações, mas posso dizer, de cara, que é necessário ser muito ignorante ou mal intencionado pra dizer uma coisa assim. Trata-se de uma propaganda de extrema-direita tão óbvia - e tão frágil - que arrisco dizer que só servirá para convencer quem realmente não tem QUALQUER base histórica ou três neurônios funcionais. A propaganda exige certa sutileza; este filme não tem nenhuma.

As intenções espúrias do "documentário" já são escancaradas na introdução que o precede no YouTube, quando ouvimos vozes supostamente de estudantes "denunciando" a censura do filme no meio acadêmico: "Recebemos informações de que...", diz a voz. Sem qualquer comprovação. A abordagem do projeto já fica clara aí: "recebemos informações"? Como assim? Uma denúncia de "retaliações"profissionais a professores de direita é algo sério demais para ser resumida a "recebemos informações".

Mas acusar é fácil quando não se enxerga a necessidade de provar.

Aliás, a tal introdução traz um dos realizadores afirmando que o filme passou pelo crivo de "dezenas de especialistas". De novo a "informação" vaga, genérica. E, a propósito, MESMO que fossem "dezenas", isto empalideceria diante dos MILHARES de estudos da época.

Quando o filme começa, a coisa só piora: imediatamente, há a sugestão de que a aproximação comercial que Jango buscou com a China se tratava de uma conspiração comunista, ignorando como, nas décadas seguintes, o MUNDO INTEIRO seguiria os passos do brasileiro. Além disso, o primeiro depoimento do filme já traz uma daquelas afirmações que visam eliminar a discussão ao argumentar que quem discorda não tem autoridade para isso: "É impossível quem não viveu a Guerra Fria saber como era o período".

Errr... não, não é. Chama-se "História'.

Mas a essência da abordagem propagandística do "doc" está na escolha de sua linguagem, de seu vocabulário. Exemplo: "(Os comunistas) assassinam brutalmente a família imperial por uma revolução que tinha Lênin como Deus e Stalin e Trotsky como papas vermelhos".

Analisemos isso. Notem, como de um ponto de vista puramente semiótico, a primeira parte da frase ("assassinaram") é acompanhada pela imagem da família imperial sendo coberta de vermelho, enquanto, na segunda ("papas vermelhos"), a mesma cor cobre Trotsky e Stalin. A sugestão é óbvia, sendo o vermelho ao mesmo tempo símbolo de violência, sangue e de um julgamento moral (Scorsese, por exemplo, frequentemente o usa como sugestão de culpa católica, algo "infernal"). A imagem completa o julgamento que o texto já faz sem sutileza. Reparem: os comunistas não assassinam, simplesmente; eles assassinam "brutalmente"; Lênin não era um líder, era um "Deus".

E há, claro, a ignorância histórica (proposital?) de tratar Lênin, Trotsky e Stalin como se fossem (e representassem) as mesmas ideias e abordagens.

Em seguida, vem a frase "Os soviéticos desenvolveram um plano para CONQUISTAR O MUNDO e implantar o comunismo EM TODOS OS PAíSES". Em primeiro lugar, ao fazer esta afirmação logo depois de mencionar Lênin como "Deus", o doc novamente ignora as diferenças entre este e Stalin. Além disso, transforma a ideia de disseminar a revolução proletária em um plano de conquista territorial insano, buscando plantar na mente do espectador a ideia de que os militares evitariam que a União Soviética invadisse e CONQUISTASSE o país. Um conceito absurdo. E, como falei, o "doc" nem tenta ser sutil quanto a isso. A frase seguinte é inacreditável vindo de um projeto que afirma ser uma análise histórica equilibrada e imparcial: "O REINO DE TERROR se espalha nas décadas seguintes".

REINO. DE. TERROR.

De fato, equilibradíssimo.

Um dos maiores documentaristas/ensaístas da História do Cinema, o cineasta francês Chris Marker, já expôs com brilhantismo em 1957, em seu fabuloso Carta da Sibéria, o tipo de recurso propagandístico que esse "doc" brasileiro tenta usar em 2019. O uso de palavras, a escolha de um vocabulário específico e a seleção de cores e imagens que acompanham uma narração moldam a percepção ideológica do espectador sem que este se dê conta, em boa parte das vezes, de estar sendo manipulado. É o vermelho sobre os Romanov e Trotsky. É o "reino de terror". É o "conquistar o mundo".

Mas aqui é tudo tão óbvio, tão infantil de certo modo, que se torna ridículo ver quem ainda TENTE dizer se tratar de algo "imparcial" ou negar a abordagem pró-ditadura. Como falei, é preciso ser estúpido ou desonesto pra isso.

Ah, sim: e isso tudo acontece ANTES DOS DEZ PRIMEIROS MINUTOS DE FILME.

E é por isso que ver esses caras comparando o "doc" ao Marighella de Wagner Moura é absurdo. O "doc" se apresenta como um estudo histórico, como uma visão "imparcial" dos fatos; Marighella se assume como ficcionalização - e, mais importante, Moura assume seu posicionamento. É o contraste entre a honestidade de Moura, que diz "Vocês sabem como eu penso; pois esta é minha visão sobre este homem que foi Marighella", e a brutal desonestidade de quem afirma "somos imparciais; esta á uma visão equilibrada da HISTÓRIA".

Querem (mais) um exemplo? Ok, vamos lá:

Em certo momento, o narrador diz: "Lênin dizia que a única moral que os comunistas reconhecem é aquela que serve aos seus próprios interesses".

Muito bem. Que tal lermos o que Lênin REALMENTE escreveu? Vou traduzir aqui e vocês avaliam se é isso: "Existe algo chamado 'moralidade comunista'? Claro que sim. Frequentemente sugerem que não temos ética própria; os burgueses frequentemente nos acusam de rejeitar toda moralidade. Esta é uma forma de criar confusão, de jogar areia nos olhos dos trabalhadores e camponeses. Em que sentido rejeitamos a ética ou a moralidade? No sentido em que estas foram definidas pelos burgueses, que as basearam nos mandamentos de Deus. Neste aspecto, claro, dizemos que não cremos em Deus e que sabemos muito bem como o clero, os donos de terra e a burguesia invocam o nome de Deus apenas para avançar seus próprios interesses como exploradores".

Em outras palavras: a ideia é denunciar a "moralidade burguesa" como desculpa - ancorada na religião - para justificar a exploração de classe. Isso é COMPLETAMENTE DIFERENTE da afirmação de que "para os comunistas a única moralidade aceita é aquela que serve aos seus próprios interesses".

Além disso, esta frase do "doc" revela uma visão filosófico-ideológica rasa, como se "moralidade" fosse algo escrito em mármore. Só esta passagem serviria para destruir a ideia de que o "doc" é uma análise "imparcial" da História, pois entrega como seus realizadores partem do pressuposto de que sua visão de mundo é a única que deve ser aceita, que é a única correta, que é um gabarito da moralidade.

Esta desonestidade - e retorno ao ponto - é que mais me irrita neste "doc". Porque fazer um filme de propaganda é algo até aceitável; direita e esquerda fazem isso desde o início do Cinema. O problema é a hipocrisia, o esforço para vender a propaganda como "realidade imparcial".

Além disso, há a velha questão de que você tem direito à sua opinião, mas não tem direito aos seus "fatos". Em outras palavras: defender uma ideologia é uma coisa; fazer REVISIONISMO HISTÓRICO, outra completamente diferente.

Um outro exemplo: em certo ponto, o "doc" simplesmente diz que a União Soviética "enviou navios e mísseis para Cuba e os apontou para os EUA". O que o "doc" convenientemente deixa de lado é que Khrushchev fez isso como RESPOSTA aos mísseis apontados pelos EUA na Itália e Turquia. Aliás, não só isso: a União Soviética e Cuba estavam REAGINDO também à tentativa de invasão norte-americana da Baía dos Porcos.

Ou seja: o "doc" apresenta como provocação unilateral algo que historicamente é reconhecido como sendo uma RESPOSTA.

Uma coisa seria discutir se a resposta soviética foi correta ou não, proporcional ou não. Tudo bem. Mas tentar apresentá-la como um ato de provocação em vez de uma resposta a "provocações" dos EUA é apenas pura desonestidade.

De novo: defender o "doc" como "imparcial" é ridículo.

Aliás, a "imparcialidade" do tal "doc" pode ser avaliada a partir da lista de seus entrevistados: Flavio Morgenstern (que aparece quase como um especialista em História!), Pondé, William Waack, o presidente do Instituto Mises, Olavo de Carvalho...

... é, certamente "imparcial".